16 de janeiro de 2010

Dente de Leão

Desmanchei
Com um sopro
Carinhoso
Um dente-de-leão.
Parece que a alma da gente
Desmancha junto...
Pára todo o mundo:
As sementes flutuam,
A alma flutua,
Toda a vida flutua.

Desmanchada,
Nem dei por conta
Que meu coração frio
Sublimou
E que, sem querer,
Flutuou.

26 de dezembro de 2009

A Menina Voadora

No sonho
É permitido:
Uma voz mansa
Que conduz
O baile,
Uma flor nova
Que perfuma
O dia,
Uma menina
Voadora
Que enfeitiça.

Vem,
Dá-me tua mão
Para levar-me:
Voar é tão puro,
Não fuja de mim.

16 de dezembro de 2009

Chanson De La Semaine

Tua voz é doce,
Não me canso nunca de ouvir-te,
Mesmo que a tarde esteja cinza
E que a canção
Seja tão triste.

Eu desejo,
Sem ter medo,
Que tudo fique assim
Como está:
Calmo, embalado no teu berço.

9 de novembro de 2009

A Minha Flor Morreu

Um verso cruel
De Augusto dos Anjos
Matou
A minha flor.
Não terei
Sua graça,
Não beijarei
Suas faces.
Não há dor
Que cesse
Ou lágrima
Que seque:

Não há esperança.

A minha flor
Morreu.

4 de novembro de 2009

Receita

Escrevo versos
Como quem
Tem pressa.

Não me apetece
A massa aos excessos,
Mas o recheio adocicado
Ou amargo.
Não me convém
A palavra morta:
Antes aquela
Que toca e vive;
Antes o verso humilde
E a intenção do poeta.

4 de agosto de 2009

Poema para olhos castanhos

O sonho
Leva nas asas
O desejo
De ter por perto
Um par
De olhos castanhos
Brilhantes e pequenos:

Quem dera
Fossem os seus.

Mas se em sonho
Tudo pode,
Por que não
Os seus nos meus?

30 de julho de 2009

Corda Bamba

O caminho embaralhado
Que me trouxe aos seus braços
Estendeu-me um fio bambo,
Feito ponte entre penhascos,
Por qual devo atravessar
Com cuidado de equilibrista
E delicadeza de bailarina.

Treme todo o corpo,
Numa ânsia de chegar
À certeza do amor sensato.

Pé a pé, arrisco.

Eu me equilibro,
Mas temo o fio se romper.

4 de novembro de 2008

Saudade

Existe uma diferença
Entre sentir falta e saudade:

A falta
É ressaca do acostumar-se
À rotina conveniente.

Saudade
É um fechar de olhos
Involutário ao inspirar.

9 de outubro de 2008

Poema de Enlevo

O sono me laçou
Com seu enlevo ingênuo,
Qual borboleta
Voando ao meu redor.
Recordo que a paz
Foi um abraço inesperado
E carinhoso
Que me aqueceu.
O sonho quase era feitiço
De sereia cantando
- E me chamava, chamava...
Eu não ia...

Não queria o sonho:
Desejava a fronteira
Que divide a mente
Em lucidez escassa
E fantasia absurda.

Assim senti tremores
E arrepios
E abonanças.
Senti você aqui,
Como um enleio,
E, enfim, cansada,
Adormeci.

15 de setembro de 2008

Cecília

Se queres me conhecer,
Lê bem Cecília.

Não é pelo traço
Nem do rosto,
Nem dos versos:
É pelo espelho
Em que perco a face,
São pelas mãos
Que naufragam sonhos,
São pelas lágrimas
Secas feito pedras
E pela precariedade
Da felicidade veloz.

Se queres me conhecer,
Não me perguntes
Que eu nem sei,
Que eu me perco.

Há quem já tenha dito:
Lê bem Cecília.

28 de agosto de 2008

Pequena

Pequena, teu calmante já está fazendo efeito. Que sentes nessa hora? Sono profundo ou prazer injustificado? Culpa ou paz?

Pequena, a lâmpada ao lado de tua cama ainda está acesa. Desejas ler ou beber mais água? É medo do escuro ou de tropeçar nos sonhos?

Minha Pequena, eu te velo o sono, não me esqueço, mas desejo que me contes: o que sonhas, Pequena?

15 de julho de 2008

Poema de Enlace

Teu olho no meu
Exige o cuidado
De se desfazer um laço
Bem devagar.
É ventura de perdição:
Quarto escuro
Dos objetos místicos.
Acarinha e devora,
No tato zeloso
Ou estabanado.

Teu mistério me confunde.

Mas eu adoro,
Pois é droga que alucina,
Me consome numa briga
Que já não sei se sou
Desejo ou amor.